E do nada é agora


O meu pé esquerdo está encostado à box. Bom, e por arrasto o direito também. Mas não é de agora. Já estou assim fez hoje duas semanas. Não disse nada aqui não sei muito bem porquê. Acho que por uma das seguintes razões: ou estava em fase de negação ou estava só deprimida. Pensando bem, acho que pelas duas. Decidi falar agora porque me apeteceu. Parece parvo mas só agora é que me apeteceu falar disso. Se calhar estava à espera que toda a gente à minha volta parasse de perguntar o que me aconteceu e quanto tempo fico parada. (atenção: é normal perguntarem, eu também perguntaria, é bom sinal, sinal que se preocupam, estou só a enunciar um facto, mais nada, sem segundas interpretações, ok?) Se calhar quando pararam de falar sobre isso, eu apercebi-me que eu tinha que falar para mim ou para quem me lê; se calhar tinha de contar para mim e para outros - mais do que o que aconteceu e quanto tempo vou ficar parada - como eu me sinto. Esquece. Esquece o «se calhar»; nesta eu tenho a certeza.

Então a da praxe:
  • Torci o pé e parti um dedo
  • Desde o momento em que o parti, há 15 dias atrás, o médico disse-me que tinha de ficar parada 3 semanas. Já fez duas, falta-me uma. Para andar.
 Ok, agora: não é drama. Parte? Cura. Torce? Passa. Sem drama. Mas o que é facto é que no dia em que parti o dedo não estava nada à espere que esse fosse o diagnóstico.

Eu estava numa aula de contemporâneo, praticamente no fim, e num exercício de saltos a professora repetia «Cisne, mais alto, mais alto, mais alto» e eu ia mais alto e mais alto. O que eu me esqueci foi que eventualmente teria de descer - a Cisne destrambelhada de sempre... E pronto, fui para o Hospital convencidíssima que era só uma entorse como já tinha tido outras vezes neste pé.

Passei a maior parte do dia no hospital com a minha irmã e o resto da noite numa esplanada em Lisboa a ver o Benfica perder, enquanto esperava que o meu pai saísse desse mesmo estádio para me vir buscar para me levar para casa (o que mais poderia correr mal? Ah pois isto...) A caminho de casa apanhámos trânsito, mais meia hora para chegar.

Quando cheguei a casa já só havia cansaço, muito cansaço. Adormeci mal me deitei. No dia seguinte, quando o meu namorado chegou do trabalho veio a minha casa ver-me. Até aí eu estava bem. Claro que quando ele se meteu ao pé de mim, me perguntou como é que eu estava e me deu um abraço, eu respondi «como é que queres eu esteja? Estou bem...com dores» e depois disso desatei a chorar, claro. Contei-lhe tudo o que se tinha passado, senti-me melhor e parei de pensar nisso... Até agora.

Isto não é grave. Aliás, se tudo correr bem, o dedo vai unir como deve ser, não vai ficar torto e, com trabalho, volto ao meu equilíbrio e estabilidade de sempre (estou a falar de dança, claro).

Mas estou com medo. Com medo de como será quando eu voltar a dançar. Se vou conseguir retomar de onde deixei rapidamente ou vou levar um estalo tão grande que me vou abaixo. Eu sei que tudo se resolve mas tudo me parece tão injusto... Na altura que eu me aleijei, (não tive oportunidade de contar aqui mas) eu estava no meu auge; tinha sido escolhida para ir a palco, já estava a fazer 3 pirouettes seguras, já ficava o tempo que eu quisesse em 3/4 de ponta na barra em passé, já começava a perceber como funciona a técnica Graham e já estava a preparar o meu próximo trabalho coreográfico com um colega - um risco que eu queria mesmo tomar, pois ou ia ser espectacular ou ia ser um fracasso. É por isto que eu acho que foi injusto. E eu sei que bailarinos percebem o que eu digo: há tantas alturas más no nosso percurso, tantas alturas em que só nos queremos atirar para cima da cama e dizer «já chega, se calhar não valho para isto» e logo agora que eu estava a evoluir, em que eu estava 120% motivada, isto acontece.

Tudo bem. Como eu disse: não é um drama. Tenho-me aguentado bem sem falar. Agora eu precisava de meter cá para fora. Mas eu estou bem. Só aborrecida por ter de depender de toda a gente e com medo por não saber o futuro ou o que fazer agora. Tenho-me mantido entretida mas tudo parece um desperdício de tempo. Tudo o que eu faço, nunca faço sem sentir que devia estar a fazer qualquer coisa para a faculdade. Mas, de facto, tudo o que é teórico eu já fiz. De resto tenho de ficar quieta. Não há hipótese nem negociação: eu não consigo meter o pé no chão.

Enfim, acho que é isto. Segundo as previsões do médico, daqui a uma semana já vou poder andar. Se ele não estiver certo, eu vou começar a desesperar.

Por agora estou bem. Tenho-me mantido ocupada.


Cisne.


P.S.- No meio de tudo isto, uma boa notícia que a vocês não vos interessa para nada: o meu namorado já está a trabalhar. Está feliz, por vezes stressado, mas só o facto de estar a trabalhar na área dele já o faz satisfeito. E eu adoro vê-lo assim. É diferente vê-lo a trabalhar e não a estudar. P Agradeço a Deus a dádiva; nos dias que correm arranjar emprego é difícil; arranjar emprego na área é mais ainda; arranjar emprego na própria área logo após terminar a licenciatura é excelente. Parabéns para ele :)

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